Semana passada escrevi um post falando de artificial stupidity, um termo utilizado pra designar técnicas que são utilizadas para fazer com que o computador erre; em outras palavras, que o adversário cometa erros propositadamente, de forma a balancear o gameplay do jogo e também deixá-lo divertido.
Para que esse objetivo seja alcançado, seguem algumas dicas, aplicadas principalmente em jogos do gênero FPS, mas que também podem ser utilizadas em outros gêneros:
1. Mover-se antes de atirar
Uma das piores coisas em um jogo FPS é você receber um tiro assim que entra em uma nova cena de batalha ou num quarto. Quando o jogador entra em um ambiente novo, normalmente costuma passar um pequeno tempo pra poder identificar um inimigo diante de novas texturas, objetos ou geometrias. Um ataque do inimigo durante esse tempo traria uma experiência ruim para o jogador. Uma maneira simples de diminuir esse fator de frustração é justamente fazer com que o NPC se mova assim que avistar o jogador. Se houver mais de um inimigo, então é suficiente que apenas um se mova. Dessa forma, movendo-se para uma posição vulnerável, o jogador é alertado de que entrará em uma situação de combate (visto que é bem comum em jogos FPS que o jogador passe um tempo explorando o cenário ou resolvendo algum enigma).
2. Esteja visível
Apesar de, em situações reais de combate, os inimigos fazerem o melhor para permanecer invisíveis, num jogo FPS não é legal existir camuflagem (que fiquem realmente invisíveis, isto é, com texturas muito semelhantes ao ambiente). O ideal seria deixar os adversários com roupas que contrastem bastante com o ambiente, de forma que fiquem visíveis. É possível ter padrões de camuflagem na roupa, mas as cores devem contrastar fortemente com a cena.
3. Tenha uma péssima mira
Uma das coisas que é desajável em um FPS é a presença de muitos disparos, visto que isso mantém o jogador em movimento e em alta tensão, aumentando o ritmo do jogo. Entretanto, esse aspecto pode ser indesejável quando o jogador e morto muito rapidamente. Logo, umas das formas de solucionar esse problema é fazendo com que os inimigos tenham uma péssima mira. Assim, é possível ter muitos disparos sem deixar o jogo extremamente difícil para o jogador. Poderia-se pensar em diminuir o dano que os disparos dos inimigos causariam no jogador, porém, dessa forma, o jogador seria privado de uma das vantagens de se ter um inimigo errando o tiro: ter a sensação de tiros passando pela sua cabeça, explodindo objetos de interação no cenário, além de fazê-lo pensar que está desviando dos disparos devido as suas habilidades.
4. Erre na primeira vez
Para algumas armas que causam um dano maior ao jogador, como as que matam com um ou dois disparos, é necessário ter algo além de uma péssima mira. Geralmente, não é divertido receber um dano muito grande repentinamente. Para que isso não aconteça, pode-se fazer com que o inimigo erre o primeiro tiro. Além disso, é possível programar os adversários para que atirem, de forma estratégica, em objetos quebráveis (barril de água, estátua de porcelana, etc.), principalmente quando estão atrás do jogador, dando tempo para que este o perceba e localize a origem dos disparos. Isso também pode ser utilizado pelo game designer como uma forma de conduzir o jogador por um caminho específico.
5. Reaja aos erros
Até mesmo os mais sofisticados sistemas de IA cometem erros; eles são inevitáveis. Se não forem devidamente tratados, podem fazer os NPCs parecerem burros. Ao reconhecer que ocorreu um erro e reagindo a isso de forma inteligente, além de preservar a ilusão de inteligência, transforma-se erro em uma nova característica. Por exemplo, considere o custo computacional do cálculo preciso que é necessário para que um NPC lance uma granada no alvo correto. Se não houver um cálculo sofisticado da física desse lançamento, é possível que o NPC erre o alvo e que a granada colida em outro objeto e volte para os seus pés (inclusive isso também ocorre com os jogadores!). Se o NPC simplesmente fique parado e espere explodir juntamente com a granada, parecerrá burro. Entretanto, se ele reagir e colocar as mãos na cabeça, como quem está surpreso ou quem diz “Ah não…”, ao invés de ser considerado um erro, isso adiciona uma certa personalidade ao NPC, bem como humor e alguma variedade ao jogo.
6. Vulnerabilidades intencionais
Os jogadores tendem a tirar proveito das fraquezas dos inimigos mesmo quando elas não são intencionais. Ao invés de permitir que o jogador descubra essas vulnerabilidades, é melhor inserí-las no comportamento dos NPCs. Por exemplo, um inimigo que está correndo, demora mais tempo pra preparar sua arma do que um que está parado; um inimigo atacado por trás poderia agir como se tivesse sido surpreendido e demorar para reagir. Adicionar imperfeições ao comportamento dos NPCs pode torná-los mais realistas e com mais personalidade.
Além dessas técnicas que foram vistas, existem muitas outras que também podem ser utilizadas em outros gêneros de jogo. Entretanto uma coisa é certa: para que se saiba utilizá-las corretamente e de forma balanceada, é necessário testar bastante jogando, pois não há como prever completamente como será a experiência do usuário ao jogar sem ter antes testado!
Postado por Adônis Tavares